ENTREVISTA: Cara Delevingne para ELLE Brasil

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Cara Delevingne: “Como se atrevem a definir beleza?”

Conversamos com Cara Delevingne sobre seu novo projeto em parceria com a Puma, o #DoYouStories, e debatemos padrões, empoderamento e segurança feminina.

 

Cara Delevingne comandou a premiére do projeto #DoYouStories, uma série de documentários que assina para a campanha Do You, da Puma, na tarde do domingo (23.07), em Londres. O evento também abordou o empoderamento feminino em talks com algumas das participantes dos filmes e serviu, ainda, para apresentar um lançamento da marca: modelos de cadarços especiais para o sneaker Basket Heart, cuja venda na Europa será revertida para a UNHCR (ou ACNUR, a agência da ONU para refugiados).

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Cara é o rosto da iniciativa “Do You”, criada por Rihanna, atual diretora criativa da marca esportiva, com o objetivo de encorajar as mulheres a serem mais confiantes e motivadas. As campanhas de divulgação dos produtos ligados ao projeto serão feitas sem maquiagem será feita sem maquiagem e passando longe de estereótipos de feminilidade a fim de combinar com as histórias inspiradoras das mulheres escolhidas a dedo pela atriz e pela equipe por trás dos filmes.

No primeiro, Cara viaja a Uganda com a fundação Girl Up, da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), para conhecer o trabalho feito com crianças refugiadas, e introduz o projeto #DoYouStories. Em seguida, ela apresenta o grupo “Get Lit”, que usa a poesia para empoderar jovens. Já em “Martial Smarts Self Defense Class”, a modelo e atriz aprende sobre defesa pessoal com a instrutora Dr. Ryhanna Dawood. Por fim, em “Preventing Bulling”, apresenta duas protagonistas da causa: Natalie Hampton, fundadora do aplicativo “Sit With Us”, e Daniella Carter, transgênero e ativista especialmente entre seus pares.

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Depois de assistirmos aos filmes, conversamos com Cara sobre a experiência. Confira!

Você é uma profissional super dedicada, e costuma escolher trabalhos que te possibilitem crescer como pessoa. O que você aprendeu com esses documentários?

Na verdade, eu não trabalho apenas para o meu crescimento. É claro que isso é importante em tudo que você faz, mesmo que seja tirar um dia de folga. Nesse caso, aprendi muito, mas também espero que outras pessoas se inspirem e aprendam. Quero acender essa chama nas pessoas, essa vontade de fazer algo para mudar — qualquer coisa pequena já conta. Essa experiência me inspira ainda mais a descobrir e contar histórias incríveis.

No último ano, eu conheci tantas mulheres maravilhosas, e mal posso esperar pela minha próxima viagem, que, se tudo der certo, deve ser para a Síria. Quero me envolver com temas sobre os quais as pessoas precisam tomar conhecimento. A crise dos refugiados, assim como a forma como eles são tratados, é um assunto muito importante. Como as pessoas preferem viver na bolha, é difícil para elas realmente entenderem. Se um adulto não quer ouvir, você precisa fazê-lo imaginar como se fosse uma criança, seu filho. Aí ele vai ouvir. As pessoas deveriam ter mais compaixão pela humanidade.

De todo o processo de construção dos filmes, tem algum momento que você não esquece?

Uganda! Não consigo definir um momento específico. Nunca me senti tão alegre e devastada em um mesmo lugar ao mesmo tempo só pelo fato de conversar com cada uma das meninas que conheci lá. Jogar futebol e correr com esse grupo de crianças foi divertido mas, de novo, rolou o momento “choque de realidade”. As crianças me deram boas-vindas com uma dança incrível, e tinham duas menininhas copiando tudo o que eu fazia. Eu estava literalmente me sentindo maravilhosa com aquelas crianças, mas aí vem essa realidade que me atinge: a maioria delas perdeu os pais, usam as mesmas roupas há dias, algumas estão doentes, outras vão morrer, não vão terminar a escola. Foi um tipo de momento em que eu me perguntei “como ouso estar tão feliz?”. É um sentimento muito estranho. Levei um monte de roupas da Puma comigo, e queria dar todas elas, mas não podia porque não é sobre simplesmente dar um monte de roupas e achar que resolveu — mas é claro que acabamos dando todas as roupas, eu não conseguiria voltar para casa com elas, seria muito estúpido. Enfim, tantas coisas aconteceram nessa viagem.

Você tem falado bastante em entrevistas sobre um sentimento de liberdade após raspar os cabelos. Desafiar padrões e conceitos ultrapassados de beleza também é importante para o empoderamento?

Isso me deixa muito brava. Como as pessoas se atrevem a definir beleza? Como qualquer um se atreve a dizer “isso é bonito, isso não é”. Eu entendo que as pessoas fazem isso há muito tempo na sociedade em que vivemos já que elas sentem uma necessidade de criar regras, só que realmente me choca conhecer meninas que não se sentem bonitas. Isso é um crime porque todo mundo é bonito. Eu conseguiria citar algumas pessoas, que inclusive estão na televisão, e que não são bonitas por causa do que fazem em relação ao mundo, à política e por não se preocuparem com outros seres humanos. Honestamente, acho que ter um coração, ser humano, é lindo, independentemente das escolhas que você faz, a cor de cabelo que você tem, se você é homem ou mulher. A beleza é infinita, você só tem que abrir os olhos para ela.

Você é uma artista com tantas habilidades — atriz, escreve poesia, prosa, música… É diferente criar em cada uma das áreas?

Eu não sei os meus limites criativos porque ter que me expressar também sempre foi o meu maior medo. Tenho dificuldade em encarar as pessoas, me apresentar e ficar na frente do público. Costumo suar muito antes de subir ao palco porque isso me assusta. Ser eu mesma na frente das pessoas é assustador, sou boa em ser outra pessoa. Então, assumir essa postura criadora ainda é um grande medo e não sei o quão longe vai porque me apavora. É um esforço diário, um exorcismo: quanto mais você faz, melhor você fica. Eu costumava muito dizer “não sou boa em escrever melodias” até que alguém perguntou o motivo. Você não pode dizer que não é bom em algo até tentar. Muitos de nós nos colocamos para baixo antes mesmo de saber se conseguimos ou não fazer alguma coisa.

No dia a dia, nos momentos simples da rotina, como as mulheres podem empoderar umas às outras?

Motivando umas às outras. Esse hábito de se comparar com as pessoas, principalmente nas redes sociais, nos coloca para baixo. É possível parar com a rivalidade e com a inveja, e, no lugar, passar a se sentir confortável com você mesma, motivar seus pares. Se você acha alguém bonito, se você gosta do vestido de alguém ou de algo que essa pessoa disse, fale. Expresse o que você sente. Seja honesto. Se você está tendo um mau dia, diga que está tendo um mau dia. Não se force a ser algo que você não é. Do you?

 

Reprodução textual: ELLE Brasil