Cara Delevingne é capa da revista Glamour US da edição de Agosto, a atriz concedeu uma entrevista a revista, a qual foi feita por uma de suas melhores amigas, Adwoa Aboah.

Confira entrevista completa abaixo:

Adwoa Aboah e Cara Delevingne estão no The Bowery Hotel, em Nova York, relembrando os velhos tempos. Embora Aboah, 25, não se lembre da primeira vez que conheceu Delevingne, 24, ela se lembra de um momento há muito tempo, quando sua amiga fez algo que ela nunca se esquecerá. “Você estava caminhando pela rua em Londres em uma caixa de papelão”, lembra Adwoa. As duas, até então, modelos jovens, acabavam de terminar um dia de elenco quando Delevingne encontrou a caixa ao redor, arregalou os olhos e a colocou sobre sua cabeça. A brincadeira foi totalmente morta.

Delevingne, claro, cresceu em Londres. Ela é de uma família proeminente: sua avó, Jane, era dama de honra da princesa Margaret. Embora Delevingne tinha estudado teatro no colegial, ela terminou seguindo o exemplo de sua irmã mais velha, Poppy, e começou a modelar aos 16. Em 2011, Delevingne, com 18 anos, conseguiu seu primeiro show grande – desfilar na passarela de outono da Burberry e, até 2012, tinha sido chamada de Modelo do Ano no British Fashion Awards. Ao longo dos próximos anos, ela começou as tendências (sobrancelhas espessas), foi capa de revistas (Vogue) e foi consistentemente classificada como uma das modelos mais bem pagas do mundo (em 2014, 2015 e 2016). Mas Delevingne, com o tempo, encontrou seu caminho de volta para sua paixão: atuar. Depois de fazer sua estréia no filme de 2012, Anna Karenina, Delevingne conseguiu um papel principal em Paper Towns, de 2015 e juntou-se a um elenco de estrelas em Esquadrão Suicida, de 2016. Neste verão, ela está na frente e no centro do filme de ficção científica de Luc Besson, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.

Mas de volta ao incidente da caixa: o que atraiu Delevingne para amigos como Aboah, mais de 40 milhões de fãs no Instagram e grandes marcas como Rimmel London foi sua personalidade peculiar. Seu lema é “abrace sua estranheza”. Ela vai mostrar a língua ou ficar vesga em fotos – e compartilhá-las. Delevingne também não tem medo de ser verdadeira: aos 22 anos, falou sobre sua atração por homens e mulheres. Ela namorou a cantora Annie Clark (nome de palco St. Vincent) por um ano e meio, uma relação que lhe ensinou “o que o amor verdadeiro era”. Em uma batalha de rap com James Corden e Dave Franco, ela brincou: “eu já fiquei com meninas mais quentes do que vocês dois combinados.” E muitas mulheres se identificam: “eu adoro a Cara Delevingne”, um fã escreveu no Twitter. “Ela se abre sobre sua sexualidade… e isso me ajudou a me aceitar”. No ano passado, ela falou sobre outro problema estigmatizado: depressão, falando sobre seu próprio diagnóstico em uma série de entrevistas. “A doença mental não é vista”, disse ela, “mas não quero que deixe de ser ouvida”.

O feminismo de Delevingne é mais profundo do que as palavras: ela sabe que muitos de seus fãs são meninas adolescentes, e ela quer quebrar as barreiras para elas. Ela escolheu atuar em Valerian, em parte, por causa de como sua personagem, Laureline, uma agente espacial encarregada de salvar o universo de uma força negra, é representada. Ela vai de frente para a batalha e salva seu parceiro, Valerian, tanto quanto ele a salva. Delevingne também está trabalhando em um documentário de poder das meninas com a marca mundial de esportes Puma neste verão, lançando um romance sobre adolescência neste outono e trabalhando com a campanha Girl Up da Fundação U.N., onde ela recentemente visitou a Uganda para defender a educação das meninas. Destruindo barreiras? Abraçando a autenticidade? Dizendo o que ela pensa? Essa é a Doutrina Delevingne. Ela conta a Aboah sobre isso, começando com algumas lembranças.

ADWOA ABOAH: Qual foi o momento mais divertido que tivemos juntas?
CARA DELEVINGNE: Quando fomos ver Kelis em Glastonbury. Perdemos todos os outros…
ADWOA: E nos encontramos na pista de dança da Kelis.
CARA: Ou dirigindo para o Burning Man, a nossa primeira vez. Não tínhamos ideia de onde estávamos indo. A garota que dirigia estava grávida e cega.
ADWOA: Ela não estava usando seus óculos, estava? O que eu percebi é que muitas das nossas primeiras vezes foram juntas.
CARA: A primeira vez que fizemos sexo – estou brincando. Brincando!
ADWOA: Isso não é real. [risos.] Não fizemos sexo. O que as pessoas veem de errado sobre você e eu?
CARA: Tudo? Nada. Eu não sei. Eu tento não pensar nas coisas que as pessoas dizem. Aprendi o quão ruim é para o meu bem-estar.
ADWOA: [As pessoas nos chamam de] “melhores amigas modelos”, mas antes éramos amigas. O que sempre me fez agradecida em nossa amizade é que não esperamos absolutamente nada uma do outra, apenas amizade.
CARA: Você é paranoica que as pessoas vão fazer amizade com você por algum motivo, que elas querem algo de você. Mas nunca pensei em algo além de que nos amamos.
ADWOA: Sim, exatamente. [Minha lista de perguntas diz] você fez a transformação do mundo da moda para a atuação há alguns anos atrás. Como se sentiu?
CARA: Eu odeio essa pergunta. A palavra transformação é estranha.
ADWOA: Aposto que sim. Eu sempre tenho pessoas me perguntando, “então você está atuando agora?” mas na verdade eu fui para a universidade para isso. Parece que “você mais uma vez pensa que eu sou uma modelo burra que agora quer ser uma atriz?”.
CARA: Exatamente, certo. Eu sempre digo que modelar é algo que eu faço, enquanto a atuação se parece mais com o que eu sou. Eu me senti melhor do que havia me sentido em anos, e isso é simplesmente fazer o que eu amo. Especialmente porque, enquanto eu fiz este filme [seu próximo filme “Life In A Year”], fiquei sóbria. Estar completamente limpa foi muito útil para entrar no personagem.

ADWOA: Faz dois anos desde Cidades de Papel. Você está em outro papel principal em Valerian. Você se sente mais estabelecida?
CARA: Não é como se eu estivesse mais estabelecida na indústria. É como se eu estivesse fazendo um filme de Luc Besson. Cresci amando seus filmes. Conheci-o e pensei: serei profissional. Em vez disso, eu estava tipo, “eu sou uma grande fã!”
ADWOA: Isso é atraente. Muitas coisas interessantes estão acontecendo em sua vida, mas ainda é emocionante. Você deve manter essa chama!

CARA: Ah, sim. Mas isso também depende de quão feliz você estiver: tem dias em que você faz a coisa mais legal do mundo e você não se importa.
ADWOA: Eu tenho que trabalhar em estar em cada realização…
CARA: Em vez de ficar tipo: vamos para a próxima!
ADWOA: Na minha leitura de poesia, todos disseram: “muito bom!”. Isso me irritou. Eles estavam sendo bons, mas eu estava tipo: eles estão mentindo.
CARA: Não é essa a coisa mais estranha? Quando você fica chateado [por causa de um elogio]? Pessoalmente, considero que estão mentindo 100 por cento. Um homem me disse: “Cidades de Papel é o meu filme favorito.” Eu pensei: eu adoro esse filme, mas eu sei que você está mentindo. Ele era um homem de 35 anos! Fiquei confusa: ele só queria ver se eu acreditava nele ou não? Acabei dizendo: “é o meu filme favorito também”.

ADWOA: É uma incapacidade gigantesca de receber elogios.
CARA: Eu acho que cada um de nós tem que olhar para a raiz da questão sobre o porque de não podermos nos sentir bem em relação a nós mesmos, o suficiente para nos “comemorar”. É maior do que o que está acontecendo no momento de receber um elogio. Todo mundo tem que descobrir o porquê de eles não concordarem com o que está sendo dito. É uma coisa de autoconfiança.
ADWOA: Sim! Ok, vamos falar sobre Valerian. Você faz o papel de Laureline. A personagem a atraiu para o projeto?
CARA: Ela é fodástica. Ela e Valerian são basicamente as únicas pessoas em Alpha, a cidade de mil planetas, e temos a tarefa de manter os planetas seguros. Valerian é todo forte, sem cérebro. Laureline faz o trabalho inteligente. Ela garante que ele não ferre tudo.
ADWOA: Você teve que treinar para este filme?
CARA: Treinamos todos os dias. Nunca fui tão forte. Você quer se sentir como se estivesse realmente chutando um enorme alienígena! Eu meditei, pratiquei yôga, comi bem, dormi muito. Você não pode abraçar nada com todo o coração sem uma cabeça clara.
ADWOA: Luc disse que você era perfeita para o papel, o que faz sentido com a forma como você descreveu Laureline – você é fodástica.
CARA: Ele está mentindo.

ADWOA: Ele não está. Como você acha que ganhou o papel?
CARA: Ele me disse: “eu preciso saber que, se você fosse considerá-la para o papel, você me daria tudo, e teríamos uma confiança completa.” No processo de audição, percebi o quanto eu – não é que eu não estava confiando nele, mas era como se eu pensasse: ele está me julgando? Pareço muito estúpida?
ADWOA: Sim. Esse embaraço. Isso te deixa completamente estagnada.
CARA: Tem que ir embora. Eu tinha que ficar com a cabeça clara – e aprender a confiar. Começa com confiar em si mesmo primeiro, então você pode começar a confiar em outras pessoas. Luc fez um ambiente seguro. E eu não sairia de lá até que eu estivesse confiante. Ele gostou do fato de que eu sou implacável.
ADWOA: Que exemplo você espera que Laureline defina para as mulheres?
CARA: Laureline fez o trabalho tão bem como Valerian. Ele não a está salvando. Eles se salvam, o que é lindo.
ADWOA: Rihanna está no filme. Como era com ela no set?

CARA: Eu vi seu trabalho no estúdio, em shows, em reuniões. Mas vê-la atuar foi incrível. Houve um momento em que Luc estava tentando fazê-la chorar, ser emocional. Ele estava tipo: “imagine que alguém tenha te dito que sua música não foi para o número um e seu desempenho foi realmente ruim. Eu sabia que ela não iria ligar nem um pouco – essa não é a maneira de lidar com a emoção dela. E ela literalmente disse: “você está brincando comigo? Eu não poderia me importar menos.” Isso foi engraçado. Luc disse que nós éramos semelhantes naquilo, uma vez que a confiança estava lá, nos tornamos argila que ele poderia moldar.

ADWOA: Isso faz sentido. Você trabalhou com a Girl Up da Fundação U.N. Qual a experiência mais poderosa para você até agora?
CARA: Ir para Uganda. O que aquelas meninas querem é tão simples: uma educação. E com estes documentários da Puma, conheci uma mulher em Toronto que da aulas de autodefesa para mulheres. Ela me perguntou: “qual é a sua arma mais forte?” E eu disse: “os punhos? a cabeça? o cotovelo?” E ela respondeu: “não, sua voz.” Eu fiquei tipo… uau, eu me sinto tão estúpida! É disso que eu tenho tentado falar! Ela disse: “Corra até mim.” Eu corri contra ela. Ela então disse “Pare!” com tanta intenção que eu voltei para trás. Ela me disse: “Você consegue fazer isso”. Eu fiz, e eu me senti tão forte.
ADWOA: Uma das garotas com quem trabalhei em Gurls Talk me enviou isso no outro dia: “Estou pensando que comecei a me atrair por mulheres”. Você começou a falar sobre sua sexualidade publicamente quando você tinha apenas 22 anos.
CARA: “Quando você tinha apenas 22.” Isso é antigo para mim.
ADWOA: É isso que quero dizer, essa garota tem 15 anos.
CARA: Conheço meninas de 13 e 15 anos que estão tipo “não sei se ainda gosto de um menino ou uma menina”. Eu não decidi. “E é como… imagine se eu pudesse compreender isso, na idade dessas meninas. Estou muito feliz com a forma como a sexualidade tornou-se mais e mais fácil de se falar sobre, especialmente para as crianças.
ADWOA: O que aconteceu quando você falou?
CARA: Uma vez que falei sobre a minha sexualidade, as pessoas ficavam tipo: “Então você é gay.” E eu dizia “Não, eu não sou gay”.
ADWOA: Durante a Semana da Moda, muitas mulheres jovens estavam em relacionamentos do mesmo sexo. E as pessoas estavam tipo: “Estou cercado pelas mulheres mais bonitas”. Não são gays; não são heterossexuais. Mas as pessoas também pensam, “ah, ela é lésbica agora”.
CARA: Muitos dos amigos que eu tenho que são heterossexuais tem um jeito muito antigo de pensar. Eles dizem “então você é apenas gay, certo?”. Eles não entendem. Se eu digo “ah, eu realmente gosto desse cara”, eles dizem, “mas você é gay.” Eu fico tipo “não, você é tão irritante!”. Alguém está em um relacionamento com uma garota em um minuto, ou um garoto está em um relacionamento com um garoto, eu não quero que eles sejam deixados de lado. Imagine se eu me casar com um homem. As pessoas ficariam como?

ADWOA: “Ela mentiu”.
CARA: “Ela mentiu para nós!” e é tipo… não.
ADWOA: Você acabou de raspar a cabeça. Você fez isso pelo seu filme Life In A Year?
CARA: Sim. Não, eu fiz isso porque sou gay. [risos.] Eu não fiz. Não sou gay. Eu sou. Eu não sou. Eu sou fluida! Eu gosto de fluida.
ADWOA: Eu sou o que eu quiser ser. Quando eu raspei meu cabelo, eu fiz isso por um capricho. Como se sentiu quando raspou o seu?
CARA: Totalmente libertadora. Mas parece que as pessoas leem minha mente mais. Sinto que as pessoas vêem meus pensamentos.
ADWOA: Você não tem nada do que se esconder. Então o que vem depois? Onde você espera estar em cinco anos? Ainda seremos amigas.
CARA: O que vem agora? Apenas vivendo a vida. Quem sabe? Pela primeira vez, estou feliz por não saber.

Fonte: Glamour

Tradução: Natasha Campi da equipe do CDBR